As minas de carvão da região de Santa Susana
Texto de Ricardo Barradas publicado na revista "O Foguete" nº 23 de 2010
O troço compreendido entre as
estações de Torre da Gadanha e Casa Branca na linha do Sul e Sueste (atual
linha do Alentejo) reveste-se de grande interesse para a história dos pequenos
caminhos de ferro de carácter industrial que ao longo dos anos existiram em
Portugal, uma vez que num percurso de apenas quinze quilómetros entroncaram,
além da Linha de Évora e Ramal de Montemor, nada menos do que três vias férreas
mineiras de bitolas diferentes, o que constituiu um caso singular no nosso país
mesmo considerando que a sua existência foi temporalmente desfasada. Descritos
que foram, Caminhos de Ferro Industriais (I), as linhas que ligavam as minas de ferro dos
Monges e Nogueirinha, respetivamente, ao quilómetro 81 e à estação de Casa
Branca, apresenta-se neste número uma curta história da mais extensa dessas
três linhas, entre o quilómetro 78 e as minhas de carvão da região de Santa
Susana.
Embora com algum atraso relativamente
aos países mais desenvolvidos, Portugal também levou a cabo a sua revolução
industrial, a partir do século XIX, à custa da então moderna tecnologia do
vapor, pondo-se de imediato a pertinente questão de saber quais eram as
potencialidades e como explorar de forma otimizada os nossos recursos
energéticos, nomeadamente o carvão que se sabia não existir nem em quantidade
nem qualidade suficiente às necessidades do país. Na verdade, Portugal sempre
esteve numa situação de dependência de importação deste combustível, mesmo na
atualidade, tendo as últimas minas de carvão em laboração, o Couto Mineiro do
Pejão no distrito do Aveiro, encerrado na última década do século XX.
Estima-se que as reservas de
carvão em Portugal tenham ultrapassado os 80 milhões de toneladas ocorrendo, principalmente,
na Bacia Carbonífera do Douro, na Bacia do Buçaco e na Bacia de Santa Susana,
embora só a primeira tenha revelado ter uma exploração economicamente rentável.
As restantes minas de carvão portuguesas acabaram por ter, de uma forma geral,
uma atividade relativamente curta, frustrando muitas vezes as expectativas dos
seus concessionários.
Região carbonífera de Santa
Susana
Também conhecida por região carbonífera
do Moinho da Ordem (devido muito provavelmente ao facto da freguesia de Santa
Susana ter sido uma capelania da Ordem de Santiago) apresenta vários
afloramentos de carbónico continental, sendo os de maior área os de Jongeis, Rameiras
e do Vale do Burro.
Este último afloramento foi
descoberto por Carlos Ribeiro e incluído na carta geológica de 1876. Alguns
anos mais tarde, Wenscelau de Sousa Pereira de Lima foi enviado à região para
preparar nova carta geológica, que viria a ser publicada em 1899. Quando a
partir de 1903 este geólogo assumiu o cargo de ministro mandou reservar para o Estado
uma área com a extensão de 27 quilómetros e uma largura média de 4,5
quilómetros, dentro da qual ficaram incluídas todos os afloramentos de carvão.
Em 1918-1919 o Estado concedeu à
firma Manuel Vincente Ribeiro Limitada de Lisboa licença para pesquisas e em 20 de Outubro de
1922 é entregue o título de concessão desta zona mineira à mesma firma que se
limita, no entanto, a realizar somente trabalhos de sondagem na área central, numa
extensão de cinco quilómetros.
O período de atividade desta mina
começou em 2 de Junho de 1925, quando Manuel Vincente Ribeiro Limitada vendeu por
£35,000 o título de concessão da zona mineira do Moinho da Ordem à The Monges
Coal Mines Limited, uma sociedade por quotas sediada no Reino Unido com um
capital de £50,000 dividido em 50000 títulos de uma libra cada.
Iniciada a atividade desta nova
firma cedo se concluiu que o afloramento a norte do Vale do Burro era mais
prometedor, pelo que em meados de 1926 toda a atividade foi transferida para a
herdade de Jongeis onde acabariam por decorrer os principais trabalhos de
exploração mineira tendo um desenvolvimento muito significativo nos primeiros
anos como se pode observar pelos seguintes números;
- 1926 – A mina empregava 220 trabalhadores, foram escavados 118 m de poços e 390 m de galerias, sendo extraídas 3603 toneladas de hulha[1].
- 1927 – A mina empregava 205 trabalhadores, foram escavados 261 m de poços e 1294 m de galerias, sendo extraídas 9332 toneladas de hulha.
- 1928 – A mina empregava 453 trabalhadores, foram escavados 410 m de poços e 2145 m de galerias, sendo extraídas 4201 toneladas de hulha.
- 1929 – A mina empregava 272 trabalhadores, foram escavados 408 m de poços e 669 m de galerias, sendo extraídas 28748 toneladas de hulha.
- 1930 – A mina empregava 440 trabalhadores, foram escavados 408 m de poços e 1610 m de galerias, sendo extraídas 25774 toneladas de hulha.
- 1931 – A mina empregava 508 trabalhadores, foram escavados 558 m de poços e 1138 m de galerias, sendo extraídas 31148 toneladas de hulha.
A partir de 1932 a produção
decaiu significativamente, e no Relatório da Direcção desse ano pode ler-se que
o prejuízo da exploração foi £12,306 mas que embora as condições na mina fossem
difíceis justificavam a continuação da sua exploração, numa escala diferente e
com alguns reajustamentos.
Com o aproximar e a eclosão da
Segunda Guerra Mundial a atividade do Moinho da Ordem passou por um segundo
momento de intensa exploração, possivelmente devido ao aumento da procura
interna que via dificultada a importação de minério devido ao conflito bélico,
até que a partir de Março de 1943 toda a produção foi destinada à CP, o que não
se prolongaria muito tempo já que em meados dessa mesma década de 40 do século
XX a mina foi encerrada, e embora tenha passado para posse de Geraldo Braancamp
Mancelos nunca mais seria retomada a sua lavra.
Desde o início da sua atividade
a The Monges Coal Mines Limited reconheceu
ser indispensável a construção de um caminho de ferro que facilitasse o
escoamento do carvão a preços competitivos para o mercado, procedendo de
imediato a estudos para a construção de uma linha, de 60 cm de bitola, ligando
a mina com a linha do Sul, nas proximidades da estação de Torre da Gadanha.
A licença para a sua construção e
exploração foi concedida, por alvará, no primeiro trimestre de 1927 e, feitas
as expropriações do terreno, os trabalhos terão começado nesse mesmo ano, não
se sabendo, no entanto, a data em que o mesmo terá entrado em funcionamento, o
que terá acontecido ainda no final de 1927 ou durante 1928.
Com uma extensão de
aproximadamente 17 quilómetros este caminho de ferro tinha início junto à mina
de carvão e terminava próximo do quilómetro 78 da linha do Sul, num local que
passaria a ser conhecido como o cais de carga 78. Por observação de cartografia
da época pode concluir-se que a nível do seu traçado apresentava uma primeira
parte muito sinuosa, devido à topografia acidentada do terreno nas proximidades
do Moinho da Ordem, dando de seguida lugar a grandes alinhamentos retos até encontrar
a via larga após uma apertada curva de 90 graus. Possuía alguns pontões sobre
pequenas linhas de água e uma passagem de nível com a estrada que ligava
Montemor-O-Novo a São Cristóvão[2]. A Nível de perfil, vencia
um desnível de pouco mais de 120 m entre os seus extremos.
Junto ao cais de carga 78 foi
igualmente estabelecido a partir de 20 de Setembro de 1928 um ramal particular de
via larga denominado “Torre da Gadanha – Minas” para serviço da The Monges Coal Mines Limited, mais
precisamente, ao quilómetro 77,497 da linha do Sul.
![]() |
| Ramal “Torre da Gadanha – Minas” |
O tráfego de carvão transportado
e expedido no cais de carga 78 para comboios de via larga foi oscilando
consoante os períodos de maior ou menor laboração da mina, Tabela 1, não
havendo estatísticas publicadas a partir de Março de 1943 uma vez que, como
referido anteriormente, a extração destas minas passou a ser destinada à CP.
Tabela 1
Ano
|
Peso em kg
|
1927
1928
1929
1930
1931
1932
1933
1934
1935
1936
1937
1938
1939
1940
1941
1942
1943
|
619.288
2.851.370
15.921.303
19.123.710
31.730.326
23.548.706
9.478.995
1.200.610
1.955.701
819.294
10.575.947
11.038.748
12.595.798
6.834.873
16.567.315
9.069.572
1.078.610
|
Embora a linha só tenha sido
levantada aquando do encerramento das minas, é possível que a atividade deste
caminho de ferro tenha sido suspensa alguns anos antes. Segundo informações
gentilmente cedidas por José Cavaco Custódio (nascido em Agosto de 1920 no
concelho de Loulé e residente em São Brás de Alportel desde os seus 23 anos,
trabalhou nas minas de Santa Susana no final da década de 30 do século passado)
o carvão extraído era transportado por camiões, não tendo recordação de nenhum
caminho de ferro além das vagonetes que circulavam no interior da mina.
Locomotivas
A força motriz utilizada neste
caminho de ferro mineiro era constituída por duas locomotivas tender a vapor. A
primeira terá entrado ao serviço no ano de 1928 tendo sido adquirida à casa
alemã Schwartzkopff (Berliner Maschinenbau AG), sendo as suas principais
características:
Ano de construção: 1927
Bitola: 600 mm
Comprimento exterior máximo: 6,50 m
Largura exterior máxima: 2,00 m
Altura, incluindo a chaminé: 2,76 m
Potência: 70 C.V.
Pressão: 12 km/cm2
Disposição dos rodados: 0-3-1
Peso aproximado: 20 ton.
|
Pelo único registo fotográfico
conhecido, no catálogo do construtor, esta locomotiva não estava numerada, mas
ostentava a palavra “ORDEM” nas partes laterais.
Em 1929 entrou ao serviço uma
segunda locomotiva construída pela The Baldwin Locomotive Works cujas
principais características eram:
Ano de construção: 1927
Bitola: 600 mm
Comprimento exterior máximo: 5,50 m
Largura exterior máxima: 2,00 m
Altura, incluindo a chaminé: 2,70 m
Potência: 48 C.V.
Pressão: 15 km/cm2
Disposição dos rodados: 5 eixos cuja disposição é
desconhecida
Peso aproximado: 15 ton.
|
Esta locomotiva foi um dos raros
exemplares deste fabricante, se não mesmo o único, a circular em Portugal e não
deixa de ser lamentável que não se conheçam registos fotográficos deste
veículo. Subsiste ainda a dúvida se terá sido comprada nova ou em segunda mão, uma
vez que nos registos da Baldwin a que tive acesso não se encontram referências
a nenhuma venda à The Monges Coal Mines.
Em toda a documentação consultada
não se encontrou nenhuma informação acerca do material circulante, além das
locomotivas, que operou nesta linha ou mesmo no interior da mina, apenas no
Relatório de Contas de 1932 se refere que o caminho de ferro, o material
circulante e os veículos da empresa estavam avaliados em £21,035 (em 1931) e
£18,931 (em 1932). Segundo as estatísticas mineiras, a força motriz empregue nesta mina em 1931 era constituída
por duas locomotivas a vapor, quatro máquinas a vapor, um motor de explosão, um
automóvel, dois dínamos e quinze motores elétricos.
Como já foi referido, a linha foi
levantada com o encerramento da minha em 1944 ou 1945 e embora o destino das
locomotivas não seja conhecido, existe um ofício de 30 de Novembro de 1946 onde
a empresa “Transportes Mundiais, Ldª” pede autorização ao Diretor Geral de
Minas e Serviços Geológicos para as exportar para Espanha. Nele pode ler-se “que ambas as locomotivas são usadas, mas se
encontram em bom estado de conservação, prontas a funcionar; que foram
utilizadas nas minas de Santa Suzana, há muito abandonadas[3];
que antes de ser feita a sua oferta para Espanha foram feitas diligências para
a sua colocação em qualquer emprêsa no nosso país, mas sem resultado, por serem
locomotivas muito antigas e de reduzido rendimento[4];
e que tendo-se consultado antes, particularmente, a Direcção Geral de Caminhos
de Ferro, foi a firma vendedora informada de que não deveria haver incoveniente
na exportação para Espanha, pois a própria D.G.C.F há anos e já depois do
início da guerra promoveu a venda, para o mesmo país, de material da mesma
bitola que tinha vindo para o Caminho de Ferro do Vale do Lima.[5]”
Aceite o pedido de exportação
terá, provavelmente, sido esse o destino destas duas locomotivas, começando uma
nova fase da sua história no país vizinho. Quanto ao caminho de ferro mineiro,
ficou quase esquecido no tempo apenas relembrado pela “teimosia” de alguns
mapas nacionais que, décadas após a linha já ter sido levantada, ainda
insistiam em o representar. Também o ramal particular de via larga “Torre da
Gadanha – Minas” acabaria por ser levantado, talvez alguns anos mais tarde,
embora só em Abril de 1967 fosse anulada a Instrução que regulava a sinalização
do mesmo por esta carecer de interesse.
Este pequeno (e incompleto)
artigo é dedicado a todos os trabalhadores e ferroviários que direta ou
indiretamente estiveram ligados a esta via ferroviária quase desconhecida,
esperando contribuir para que a sua memória seja relembrada no futuro.
BIBLIOGRAFIA
Boletim de Minas, vários anos -
Direcção Geral de Obras Públicas e Minas, Lisboa.
Relatório da Direcção Geral de
Caminhos de Ferro, vários anos - Ministério do Comércio e Comunicações, Lisboa.
Comunicações dos Serviços
Geológicos de Portugal, Tomo XXXVI, Lisboa 1955.
Diversos documentos relativos à
The Monges Coal Mines Limited, The National Archives, Londres.
[1]
Carvão mineral que foi formado pela decomposição de troncos, raízes, galhos e
folhas de árvores que cresceram há 250 milhões de anos em pântanos rasos.
[2]
Atual EN 253: Comporta – Alcácer do Sal – Santa Susana – Montemor-O-Novo.
[3] Tendo as minas encerrado
pouco tempo antes deste documento ser redigido, esta afirmação parece sugerir
que foram as locomotivas que há muitos anos foram abandonadas, o que
coincidiria com a afirmação de José Cavaco Custódio de que o minério era
transportado por camião no final dos anos 30 do século XX.
[4] Outra afirmação estranha,
dado tratarem-se de locomotivas construídas 19 anos antes. Talvez o “antigo” se
referisse ao facto de serem locomotivas a vapor, numa época em que a tecnologia
diesel se começava a afirmar,
principalmente nas pequenas locomotivas industriais.
[5] Aqui parece haver um
desconhecimento por parte da empresa Transportes Mundiais, Ldª., ao confundir
via reduzida com “mesma bitola”. Como é sabido o Caminho de Ferro do Vale do
Lima tratava-se de uma linha eletrificada de bitola métrica entre Viana do
Castelo e Ponte de Lima, numa extensão de 21 km. Embora tenha chegado a ser
construído acabou por nunca entrar em exploração devido a problemas financeiros
acabando o material circulante por ser vendido à Compañia de Tranvias y Ferrocarriles de Valencia.



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