As linhas da Mina dos Monges Nº1 e da Mina da Nogueirinha
Texto de Ricardo Barradas publicado na revista "O Foguete" nº 19 de 2008
Minas de Ferro de Montemor-o-Novo é a designação usualmente dada à faixa mineralizada situada nas freguesias de S. Mateus, Santiago do Escoural e S. Brissos, no concelho de Montemor-o-Novo,distrito de Évora. Com uma extensão de aproximadamente doze quilómetros, estende-se paralela à Linha do Sul e Sudeste, desde a Herdade da Nogueirinha, a sudeste, até à Herdade da Gamela,a nordeste, compreendendo as concessões: Herdade da Nogueirinha, Herdade da Defesa e da Sala, Herdade da Serrinha, Vale da Arca, Casas Novas, Carvalhal, Herdade do Castelo, Serra dos Monges Nº2, Serra dos Monges Nº1 e Ferrarias -Herdade da Gamela-.
Vários vestígios existentes nas minas Serra
dos Monges Nº1, das Ferrarias e da Nogueirinha atestam a mineração e fundição
praticadas pelos romanos ou, mais tarde, pelos mouros. No entanto só no século XIX
começou a exploração mineira de toda esta faixa, quando em 1866 foi dada a
concessão para a Mina Serra dos Monges Nº1. Problemas de ordem técnica e
económica conduziram a uma exploração pouco regular. Não obstante, algumas das
minas chegaram a ser largamente exploradas, tendo até sido servidas por
pequenas linhas ferroviárias para facilidade de escoamento do minério.
Durante a década de quarenta do século XX,
vários anos após o abandono das linhas, um estudo realizado pela Direcção Geral
de Minas e Serviços Geológicos revelou que as massas importantes desses jazigos
já tinham sido extraídas restando apenas pequenas tonelagens de minério de
qualidade inferior. Era o atestado de óbito das Minas de Ferro de
Montemor-o-Novo.
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| (c) 2008 Ricardo Barradas |
A linha da Mina dos Monges Nº1
Não obstante
ter sido várias vezes registada, a portaria dos direitos de descoberta da Mina
Serra dos Monges Nº1, foi dada à Cartaxo Street & Cº., em 4 de Agosto de
1865. Em 12 de Novembro de 1866 esta companhia obteve a concessão provisória e
um ano mais tarde a definitiva.
Muito embora
se dissesse que o ferro desta mina era de qualidade superior ao de Bilbao e
pouco inferior ao da Ilha de Elba -Itália-, que era dos melhores ferros que se
conheciam, os seus primeiros anos de lavra não foram propriamente um sucesso.
Segundo afirma o Engº. Rudolf Monat num relatório de 24 de Fevereiro de 1868, a
causa da morosidade dos trabalhos até esta data dever-se-ia à dificuldade em
arranjar comprador a um preço conveniente e ainda por obstáculos apresentados à construção de um ramal ferroviário para a mina. Quatro anos passam sem que a
situação se altere, pois segundo um parecer do Eng.º João Ferreira Braga de
1872, a lavra até esse ano tinha sido intermitente, não só por falta de um
ramal que estabelecesse a ligação com os Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, mas
também pelo elevado preço das tarifas, más condições de baldeação para os
barcos no cais do Barreiro e baixa cotação do ferro no mercado estrangeiro.
E é
precisamente no ano de 1872 que começa o mais importante período de exploração
desta mina. Dois factores foram decisivos. Por um lado estava a alta dos preços
do ferro nos mercados internacionais causado por um aumento na procura deste
minério. Por outro lado foi a redução das tarifas do transporte ferroviário,
por portaria de 7 de Fevereiro de 1872, que estabelecia como primeira condição
dessa concessão não transportar menos de 25 mil toneladas de minério de ferro
anualmente. A Cartaxo Street & Cº. tratou imediatamente de proceder à
construção de uma pequena linha que, partindo da mina ia entroncar com a rede
geral de caminhos de ferro.
Não se
encontrou referência à data do início da construção desta pequena linha férrea,
mas sabe-se que em Junho de 1872 os movimentos de terra e as pequenas obras de
arte estavam quase concluídas, estando-se a começar o assentamento da via.
A pequena
linha com uma extensão de aproximadamente 4200 metros, tinha início ao
quilómetro 81 da linha do Sul e Sueste[1] e
seguia, numa rampa ligeira mas contínua, até às proximidades da mina.
Ao quilómetro
81 existia uma torba onde se fazia a transferência, por gravidade, do minério
das vagonetes da mina para os vagões do Sul e Sueste. Esta manobra era possível
graças a um desnível de aproximadamente quatro metros entre o caminho de ferro
mineiro e a linha de via larga. Ainda neste local, e pela análise de alguma
cartografia da época, há indícios da existência de um triângulo de inversão,
que seria usado, muito provavelmente, para a inversão das pequenas locomotivas
da mina. A companhia do Sul e Sueste contava, naturalmente, com uma linha de
resguardo onde os seus vagões eram carregados com o minério de ferro.
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| Torba localizada ao quilómetro 81 da linha do Sul e Sueste. Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. |
Já nas
proximidades da mina a linha bifurcava-se dirigindo-se um dos ramos a norte,
para o plano inclinado nº1 (ou do Convento) localizado nas proximidades do
Convento dos Monges[2] cujas ruínas ainda hoje
existem no local enquanto que o outro ramo ia até ao plano inclinado nº2 (ou de
S. Jorge) mais a sul.
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| Travão do plano inclinado nº1 (ou do Convento). Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. |
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| Travão do plano inclinado nº2 (ou de S. Jorge). Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. |
A bitola desta
pequena linha, seria, segundo o Eng. Bartissol, de 1m00[3], o
que, a nível de curiosidade, lhe confere o título de única via métrica do sul
do país.
Para o serviço
neste caminho de ferro foram adquiridas duas[4]
pequenas locomotivas a vapor de 7 toneladas e um número indeterminado de
vagonetas especiais para o transporte do minério. Infelizmente não foram
encontrados dados sobre este material. Das imagens que chegaram aos nosso dias
podemos afirmar tratarem-se de locomotivas saddle-tank,
com uma disposição de rodados 0-2-0, cilindros exteriores e com um característico
apara-fagulhas montado na chaminé. Tal como o proprietário das minas, a sua
origem deveria ser inglesa.
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| Locomotiva a vapor de origem desconhecida usada no serviço da linha da mina dos Monges Nº1. Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. |
Graças ao
relatório do Eng. Bartissol ficamos a saber que as vagonetas, carregadas,
desciam por gravidade desde as minas até ao quilómetro 81 onde o minério de
ferro era transferido para os vagões de 7t,5 do Sul e Sueste e que
as locomotivas eram, então, empregues para rebocar as vagonetas vazias de
regresso à mina. Parece que muitas vezes a coordenação entre os dois comboios não era a mais correta e acontecia que quando chegavam as vagonetas com
minério da mina não estavam ainda os vagões de via larga disponíveis para
receber o minério. As vagonetas eram então despejadas e regressavam à mina.
Quando o comboio do Sul e Sueste chegava, o minério era depois carregado numas
vagonetas da mina que se encontravam permanentemente junto à torba do
quilómetro 81 e daí passava, finalmente, para os vagões de via larga. Manobras
bem curiosas, não haja dúvida.
Os mercados
internacionais mantiveram-se favoráveis à laboração desta mina durante alguns
(poucos) anos. Em 1875 contava os Monges com 350 operários e foram exportadas
60 mil toneladas de minério. Mas logo em 1879 paralizaram os trabalhos devido à
baixa de preços ocasionada pela laboração das minas de Bilbao. Desta paralisação resultou não só abandono mas também o levantamento da linha férrea. Não se sabe qual o destino das duas pequenas locomotivas, mas foram,
seguramente, vendidas para outros caminhos de ferro em Portugal ou no
estrangeiro.
Não obstante
uma existência efémera, de 1872 a 1879, esta linha deixou várias marcas e ainda
hoje, 129 anos depois de ter sido levantada, são visíveis algumas partes do seu
traçado, como o grande aterro junto ao Convento dos Monges.
A linha da Mina da Nogueirinha
A Mina da
Nogueirinha é registada pela primeira vez em 1871 por Rufino Basílio Rachão mas
o alvará de concessão definitiva só é atribuído em 13 de Agosto de 1873 a James
Hall. Ao longo dos anos esta mina foi passando por períodos de exploração mais
ou menos intensos assim como por alguns períodos de inactividade. O seu alvará
de exploração também foi sendo transmitido até chegar em 1911 à casa Henry
Burnay & Cª.[5] O último ano de actividade
desta mina foi 1929 e em 1937 é solicitada a suspensão da lavra.
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| As locomotivas dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste forneciam a tracção na linha da Mina da Nogueirinha. Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. |
Chegou a ser
servida por uma linha de via larga com uma extensão de aproximadamente 5 km que
a ligava directamente à estação de Casa Branca e eram as próprias locomotivas e
vagões da Companhia do Sul e Sueste que circulavam até à mina. Sabe-se que por
este ramal era transportado não só o minério extraído da Nogueirinha mas também
das minas da Defesa, Serrinha e Vale da Arca que estavam ligadas ao cais da
Nogueirinha por meio de uma linha decauville.
No
seu relatório de 1876 o Eng. Bartissol justifica a necessidade da construção
desta linha com o facto deste conjunto de quatro minas, já referidas, poder
exportar entre 350 a 400 toneladas de minério por dia o que equivaleria a um
movimento de 50 a 60 vagões de 7t,5 do Sul e Sueste. “Este grande movimento na estação de Casa
Branca iria causar atrasos e dificuldades que seriam difíceis de vencer neste
país, especialmente se a linha continuar nas mãos do Estado, como acontece
presentemente”, afirma Bartissol. Ainda segundo este engenheiro a despesa
com a construção desta linha seria a seguinte:
Embora não se
conheça a data de construção desta linha, ela terá, portanto, ocorrido após
1876, não se podendo no entanto afirmar que a sua construção tenha seguido as
directrizes indicadas por Bartissol. E sendo a quantidade de minério extraída
das minas consideravelmente inferior às previsões feitas por este engenheiro[6], o
Banco Burnay acaba por solicitar em 26 de Abril de 1926 autorização para
levantar os carris de caminho de ferro. Este pedido foi indeferido, mas com a
cessação da actividade desta mina três anos mais tarde, a linha acabaria por
ser, também ela, abandonada.
Ainda hoje são visíveis alguns vestígios no ponto onde esta linha tinha início na estação de
Casa Branca. A própria agulha que dava acesso a esta linha foi apenas removida
há alguns anos atrás. Já próximo da mina da Nogueirinha ainda é possível
observar uma pequena secção com carris e travessas assim como um aterro por
onde decorria a seu traçado.
| Vestígios da linha que servia a Minha da Nogueirinha ainda visíveis em 2008. Ricardo Barradas |
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| Ortofoto da estação de Casa Branca onde é possível identificar o início da linha para a Mina da Nogueirnha. Centro Nacional de Informação Geográfica (CNIG). |
Os
textos acima resultam da compilação de algumas informações recolhidas ao longo
de vários anos. Não sendo tão completos como seria desejável, servem,
seguramente, de base para uma investigação mais aprofundada sobre a historia
destas linhas, tão injustamente esquecidas.
BIBLIOGRAFIA
[1] Minas de ferro de
Montemor-o-Novo Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos; Lisboa 1949
[2] LEAL, AUGUSTO S. A. B. P. -
Portugal Antigo e Moderno Editora de Mattos Moreira & Companhia; Lisboa
1875
[3] BRAGA, JOÃO F. -Relatório
acerca das Minas de Ferro da Nogueirinha, Defesa, Serrinha, Vale d'Arca,
Castelo e Ferrarias
Lisboa 1872 (Arq. da Rep. de
Minas)
[4] SILVA, ANTÓNIO M. - Relatório
de reconhecimento da Mina do Sítio do Carvalhal 1901 (Arq. da Rep. de Minas)
[5] BARTISSOL – Rapport sur les
Gisements de Minerai de Fer Magnétique de San Thiago, Province de Alemtejo,
Portugal; 1876 (Arq. da Rep. de Minas)
[1] Actual Linha do Alentejo entre a estação de Torre da
Gadanha e a antiga estação de Escoural.
[2] Também
conhecido como Convento de Nossa Senhora do Castelo das Covas de Monfurado. O terramoto
de 1755 quase destruiu o edifício ainda em construção, pelo que a primeira
missa só veio a ser dita em 1783; em 1834 o decreto de extinção das ordens
religiosas condenou-o ao abandono e ao esquecimento. Mesmo assim, a igreja
ainda serviu ao culto até ao princípio do século XX.
[3] Foram
encontradas duas referências a uma bitola 0m60, sendo uma num relatório de 1901
elaborado pelo Eng. António M. Silva e outra numa obra de 1949 sobre as Minas
de Montemor-o-Novo, da Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos. É de crer
que esta bitola não é correcta, pois se por um lado a linha há muito que tinha
sido levantada aquando da elaboração destes trabalhos, por outro, algumas
fotografias evidenciam a existência de duas bitolas diferentes na Mina dos
Monges Nº1. A bitola de 0m60 pertencia às linhas decauville que uniam as galerias com os planos inclinados e
facilitavam a extração do minério, e os seus vestígios terão, muito
provavelmente, induzido em erro os seus
autores.
[4] Mais
uma discrepância encontrada na obra de 1949 sobre as Minas de Montemor-o-Novo,
da Direcção Geral de Minas e Serviços Geológicos, onde é referida a existência
de quatro locomotivas.
[5] A casa Henry, Burnay &
Cª., mais tarde Banco Burnay, foi fundada Henry Burnay (1837 – 1909), e esteve
envolvida na construção de linhas de caminho de ferro.
[6] No seu relatório de 1876
previa a extracção de 100000 ton por ano das minas da Nogueirinha, Defesa,
Serrinha e Vale da Arca, enquanto que na realidade este conjunto de minas
exportou apenas 137406 ton em toda a sua vida útil.










muito muio instrutivo. vivo aqui ao lado do convento e interessa-se resgatar as vias antigas. onde poderemos encontrar cartas detalhadas sobre a via de ferro da deste complexo?
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